Apresentação do dossiê – V SIGCI

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APRESENTAÇÃO

A presente Edição Especial do Texto para Discussão do Laboratório de Estudos sobre Circulação, Transporte e Logística contempla artigos do V Simpósio Internacional de Geografia do Conhecimento e da Inovação (V SIGCI) que ocorreu em Florianópolis entre os dias 30 de setembro e 2 de outubro de 2024.

O tema do V SIGCI foi Novas centralidades urbanas na Era Digital: Tecnologias da informação e o comando na rede de cidades. Buscamos estimular um campo de pesquisa que interconecta a rede urbana e a inovação, um debate ainda pouco explorado na literatura nacional e internacional. A ideia central é que a difusão de tecnologias de informação e comunicação (TICs) tem modificado a relação entre os serviços e o território. Se, há pouco tempo, havia um fluxo contínuo de pessoas de cidades pequenas em direção a centros intermediários e metrópoles para a aquisição de bens e serviços, recentemente o avanço do comércio virtual, da educação a distância e mesmo da saúde digital tem reduzido a necessidade desse fluxo.

Em vez de eliminar a centralidade, o entendimento foi de que está ocorrendo uma transformação das centralidades no território nacional. Algumas cidades, com capacidade de se inserir na economia digital, aumentam sua centralidade, enquanto outras a perdem. Colocar essa discussão em pauta requer uma compreensão ampla de caráter político, econômico e social, que revela a forma de inserção do Brasil no que tem sido chamado de era digital.

Nesse sentido, o V SIGCI recebeu trabalhos de pesquisadores de diversos campos de pensamento e de regiões do Brasil. Tivemos cinco sessões temáticas (ST). A ST1, intitulada Sistemas territoriais de inovação em contextos periféricos, foi coordenada por Ana Cristina Fernandes (UFPE), Renato Garcia (Unicamp), André Martinello (UDESC) e André Sica Campos (Unicamp). A ST2, denominada As cidades na era digital, contou com a coordenação de Janaina Pamplona (Unicamp), Rodrigo Firmino (PUCPR), Maria Helena Lenzi (UFSC) e Carolina Batista Israel (UFPR). A ST3, sob o título Plataformas Digitais, Redes e Desigualdades, teve como coordenadores Marcelo Pinho (UFSCar), Tamara Tania Cohen Egler (UFRJ) e Victo Silva (Radboud University). A ST4, intitulada Efeitos da Digitalização na indústria, agricultura e recursos minerais, foi coordenada por Carlos Espíndola (UFSC), Janaina Ruffoni (Unisinos) e Fernando Sampaio (Unioeste). Por fim, a ST5, denominada Redes técnicas: infraestrutura e circulação na era digital, teve como responsáveis Márcio Rogério Silveira (UFSC), Rodrigo Cocco (UFSC) e Nelson Fernandes Felipe Jr. (UNILA).

Os artigos que contemplam esse número especial se destacaram em suas respectivas sessões temáticas, sendo solicitada uma nova versão com o envio do artigo completo para compor a presente edição.

Três artigos foram indicados na ST1. O artigo Sistema territorial de inovação e a obtenção de patentes: desafios e potencialidades para a região nordeste do Brasil, de autoria de Jorge Magno da Silva Costa, Jane Roberta de Assis Barbosa, Luzia Hellen de Soares Azevedo e Pedro Lucas Filgueira Pereira, buscou compreender os setores produtivos beneficiados pelas patentes obtidas por instituições de ensino e pesquisa no Nordeste, uma região marcada por desafios e potencialidades no contexto da inovação tecnológica. O artigo Fluxos de conhecimento no semiárido: a importância da assistência técnica e extensão rural na retomada da produção algodoeira no Seridó Potiguar, de autoria de Maria Fernanda Silva Santos e Thiago Adriano Machado, teve como objetivo discutir o papel que a assistência técnica e a extensão rural desempenham na geração de fluxos de conhecimento estruturadores de dinâmicas territoriais no Seridó potiguar, considerando dois projetos de retomada da produção algodoeira na região. Por fim, o artigo A demiurgia de classes realizada pelo Centro de Inovação Catarinense: um processo de mudança institucional e criação de trajetória, de autoria de Guilherme Cardoso Estevão e Janaina Pamplona da Costa, estudou o Centro de Inovação Orion Parque, buscando descrever quais são e como agem os mecanismos de transformação institucional-cultural e entender como o Parque busca abandonar antigas e adicionar novas instituições informais na região Serrana com a esperança de mudar a trajetória tecnológica da região.

Três artigos foram publicados em decorrência das discussões promovidas pela ST2. O estudo Da agenda tecnopolítica dos dados na América Latina à geração cidadã de dados nas favelas, de autoria de Gilberto Vieira, instiga reflexões sobre como sujeitos geográfica e subjetivamente localizados podem reposicionar territórios marginalizados por meio de ações tecnopolíticas e quais ferramentas eles estão dispostos a inventar ou adaptar para assegurar comunidades com plenos direitos. O artigo Accesibilidad, seguridad y confort em el acceso y la espera em las paradas de autobús en São Paulo (Brasil), de autoria de Matheus Silva Cabral, está centrado na análise da acessibilidade proporcionada pelas cidades aos seus cidadãos, com foco específico no processo de acesso de pedestres às paradas de ônibus na cidade de São Paulo, no Brasil. O artigo Serviço público digital em Curitiba: as contradições do acesso ao cadastro online, de autoria de Carla Alessandra Marques, coloca em pauta os desafios de acesso aos serviços públicos digitais em Curitiba, com foco no Cadastro Online para vagas em creches públicas e nas dificuldades enfrentadas por mulheres em Ocupações Urbanas. Argumenta-se que, embora esses serviços integrem estratégias de governo eletrônico e cidades inteligentes, sua efetividade depende da distribuição equitativa das tecnologias de informação. A pesquisa discute como desigualdades de classe e gênero são ampliadas por infraestruturas tecnológicas que não atendem plenamente às necessidades da população.

A ST3 indicou três artigos para esta publicação. O estudo Plataformização: nexos com o espaço e a financeirização, de autoria de Ramon Menezes Corrêa Justiniano e Leandro Bruno Santos, investiga as lógicas e estratégias de atuação da Uber e 99, utilizando pesquisa bibliográfica, documental e análise de mídias. Os resultados indicam que a plataformização está associada à financeirização, ocorrendo por expansão, aquisições ou investimentos. Além disso, a atuação dessas empresas é seletiva, concentrando-se em centros urbanos conforme a disponibilidade de mão de obra, população e infraestrutura informacional. O artigo Plataformas digitais no circuito da economia urbana: comércio de confecção em Maracanaú-CE, de autoria de Emanuelton Antony Noberto de Queiroz e Alexsandra Maria Vieira Muniz, buscou analisar como a economia de plataformas digitais influencia novas dinâmicas no circuito inferior da economia urbana. Seus resultados demonstram que com a popularização do celular e da internet, essas plataformas penetram nesse circuito, promovendo interações entre os circuitos e ampliando a difusão da economia de plataformas. Por fim, o artigo Transações, aplicativos e o território brasileiro: pensando o lugar das fintechs a partir da financeira PicPay, de autoria de Wagner Nabarro, buscou relacionar as fintechs e o espaço geográfico, com foco na centralidade de São Paulo e na creditização do território brasileiro. Com foco na PicPay, seu estudo demonstra que ao atingir escala nacional, a empresa foi adquirida por um grande grupo econômico e transferiu suas operações para o centro financeiro de São Paulo, ampliando sua base de clientes e desenvolvendo novos instrumentos financeiros, especialmente voltados ao crédito e consumo.

A ST4 indiciou quatro artigos para compor esta Edição Especial. O artigo Inovação na indústria de móveis: a construção de um modelo 'Made in', de autoria de Dennison Benetti Rodrigues e Marlon Clóvis Medeiros, buscou analisar a transferência produtiva na indústria moveleira no século XXI, destacando o papel do design como inovação, com foco no modelo made in Italy e na ascensão da China como líder global. Utiliza revisão bibliográfica e análise de dados setoriais para comparar esses modelos, identificando padrões, inovações e os caminhos que levaram esses países a se tornarem referências no setor. O artigo Desenvolvimento e progresso técnico no setor moveleiro após a década de 1970, de autoria de Bruno Saggiorato e Carlos José Espíndola, investiga as inovações no setor moveleiro nos últimos 50 anos e seus impactos na configuração da indústria. Conclui-se que avanços na matéria-prima, especialmente na madeira, provocaram transformações disruptivas, resultando em uma reestruturação completa do setor. O artigo Dimensões da proximidade no contexto da eletrificação veicular: criação de competências como fator de localização?, de autoria de Matheus Ayres Wessler, Fernando Campos Mesquita e Leila Christina Dias, explora a hipótese de que competências do setor eletrometalmecânico na região de Joinville (SC) possam ter influenciado na decisão locacional da firma alemã no contexto de eletrificação veicular. Os autores conduziram entrevistas com agentes relacionados à empresa, à UFSC de Joinville e à política, colocando que não se identificaram interações entre a empresa e o setor eletrometalmecânico que pudesse corroborar com essa hipótese. O artigo A atuação da FINEP no desenvolvimento e disseminação da indústria 4.0 no território brasileiro, de autoria de Leandro Bruno Santos e Glaucia de Oliveira Cláudio, avalia o papel da FINEP no desenvolvimento e difusão das tecnologias da Indústria 4.0 no Brasil. A análise, baseada em bibliografia e dados institucionais, revela que, apesar do volume ainda incipiente, a FINEP prioriza o desenvolvimento tecnológico sobre sua disseminação produtiva. Além disso, a distribuição dos recursos é desigual e seletiva, seguindo padrões preexistentes de concentração de infraestrutura, empregos em TI e estabelecimentos industriais.

A ST5 indicou três artigos para a publicação. O trabalho As novas tecnologias no transporte rodoviário de passageiros brasileiro: planejamento territorial, inovações e desafios, de autoria de João Henrique Zoehler Lemos, analisa o transporte rodoviário de passageiros no Brasil diante das novas tecnologias de mobilidade, com foco nas plataformas digitais. Argumenta-se que o uso massivo de tecnologias da informação deve ser incorporado pelo Estado para aprimorar o planejamento territorial e fortalecer o transporte público, garantindo maior eficácia social e transparência. O artigo Aceleração do tempo: a logística de transporte em novos modais de comunicação a partir de Ponta Grossa-Paraná-Brasil, de autoria de Edson Belo Clemente de Souza e Waldir Rodrigues, buscou analisar o transporte rodoviário em Ponta Grossa (PR) sob a perspectiva da infovia, considerando a aceleração do tempo na logística. Destaca-se a adaptação às novas dinâmicas de comunicação e movimentação de mercadorias, com investimentos em modais que integram tecnologia e inovação. A infovia é apresentada como elemento central na conexão de lugares, otimização da circulação, escoamento de cargas, manutenção de frotas e monitoramento logístico em tempo real. O último artigo desta edição, o estudo Sistemas de transporte e armazenamento de cargas: o caso do Porto Seco de Foz do Iguaçu, de autoria de Eidy Edwin Arndt Semoto, analisa a importância do Porto Seco de Foz do Iguaçu na movimentação de cargas e sua contribuição para a integração regional e o desenvolvimento econômico e social. Apesar das limitações estruturais, como espaço reduzido e congestionamentos, o porto exerce um papel central no atendimento às demandas dos países do Mercosul.

 

Fernando Campos Mesquita

Organizador